o que se sabe sobre ferrovia que deve ligar Atlântico-Pacífico

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Brasil e China assinaram na segunda-feira (7) um memorando de entendimento para dar início aos estudos técnicos sobre a criação de um corredor ferroviário ligando o município de Lucas do Rio Verde, no estado do Mato Grosso, ao porto de Chancay, no Peru.

O projeto é visto como uma nova alternativa de integração logística entre a América do Sul e a Ásia, com potencial para reduzir tempo e custos de exportação, principalmente de grãos e minérios.

A parceria formal foi firmada durante reunião do subcomitê de infraestrutura da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), em Pequim, e dá continuidade às negociações iniciadas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Xi Jinping no fim de 2024.

Traçado e integração ferroviária no Brasil
O projeto parte de Lucas do Rio Verde e percorre a Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), que liga a cidade a Mara Rosa, em Goiás. Ali, será conectada à Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que segue até o porto de Ilhéus, na Bahia. As duas compõem o eixo de integração com a Ferrovia Norte-Sul (FNS), que liga Açailândia, no Maranhão, a Estrela d’Oeste, em São Paulo. A proposta prevê que a partir de Lucas do Rio Verde comece o trecho internacional, cruzando Rondônia e o Acre até chegar à fronteira com o Peru.

Conexão com o Pacífico e porto de Chancay
Do lado peruano, a ferrovia atravessaria a Cordilheira dos Andes até o terminal de Chancay, recém-inaugurado e localizado a cerca de 70 quilômetros da capital Lima. O porto, controlado pela estatal chinesa Cosco Shipping Ports, é apontado como ponto estratégico para o escoamento de produtos da América do Sul para o mercado asiático. A conexão é apontada por técnicos do Ministério do Planejamento como um instrumento para ampliar as possibilidades comerciais do Brasil com países do Pacífico.

Objetivos do memorando e responsáveis pelos estudos
O acordo autoriza estudos técnicos, econômicos e ambientais, a serem realizados pela estatal brasileira Infra S.A., vinculada ao Ministério dos Transportes, e pelo China Railway Economic and Planning Research Institute.

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Segundo o governo brasileiro, não há definição de orçamento, cronograma ou trechos exatos. O desenho da proposta será construído a partir das informações coletadas nessas análises, que também deverão considerar pontos de integração logística já existentes no país.

Inserção na política de infraestrutura regional
A Ferrovia Bioceânica está incluída no projeto Rotas de Integração Sul-Americana, coordenado pelo Ministério do Planejamento e lançado em 2023. O objetivo é concentrar investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC) em regiões de fronteira com países vizinhos, articulando modais rodoviários, ferroviários e hidroviários. As estradas BR-364 e BR-317, já operacionais, percorrem os mesmos trechos propostos para a ferrovia no lado brasileiro. No Peru, a rota segue a rodovia Irsa Sur.

Acordo faz parte de pacote bilateral Brasil-China
A assinatura do memorando ferroviário é uma das iniciativas previstas no acordo bilateral assinado em novembro de 2024 entre os governos do Brasil e da China. Os quatro eixos do pacto incluem, além das Rotas de Integração, o Novo PAC, o plano Nova Indústria Brasil e o Plano de Transformação Ecológica.

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Em abril deste ano, uma comitiva chinesa já havia visitado Brasília para reuniões técnicas com representantes dos ministérios da Casa Civil, do Planejamento e dos Transportes. O tema voltou à pauta em maio, durante visita oficial do presidente brasileiro a Pequim.

Possíveis ganhos e riscos ambientais
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sugere que a ferrovia poderá reduzir em até 10 mil quilômetros a rota marítima tradicional entre o Brasil e países asiáticos, encurtando em cerca de duas semanas o tempo de transporte. Essa estimativa eleva o interesse do setor agrícola e mineral.

Organizações ambientais, porém, alertam para riscos associados ao traçado, especialmente em áreas de floresta amazônica e territórios indígenas. Segundo a agência Reuters, entidades pedem que os estudos contemplem avaliações ambientais detalhadas e consultas às comunidades locais.

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Contexto geopolítico e inserção na Nova Rota da Seda
Analistas veem a ferrovia como parte da BRI (Belt and Road Initiative), estratégia da China conhecida como Nova Rota da Seda. A iniciativa busca fortalecer cadeias logísticas sob influência chinesa, ampliar o uso internacional do yuan e assegurar o abastecimento de matérias-primas. O projeto também ajuda a redistribuir a produção para províncias menos industrializadas dentro do próprio território chinês, em meio a uma rivalidade crescente com os Estados Unidos.

E agora?
A Cosban continuará a acompanhar a evolução dos estudos, considerados decisivos para qualquer decisão sobre execução ou financiamento do projeto. A ferrovia é discutida há mais de uma década por autoridades da América do Sul e voltou ao centro das negociações com a recente inauguração do porto de Chancay. O governo brasileiro informou que o andamento dos estudos será coordenado entre os órgãos técnicos dos dois países, sem prazo definido para conclusão.

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