Brasil com juros a 15%, EUA a 4,5% – ainda assim vale investir no exterior?

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Com a manutenção dos juros em 15% ao ano no Brasil e entre 4,25% e 4,50% nos Estados Unidos, a renda fixa local continua sendo destaque entre os investimentos. Diante desse cenário, muitos investidores podem se sentir tentados a concentrar todo o capital no mercado doméstico, ainda mais com aplicações atreladas ao CDI entregando até 111% do indicador. No entanto, segundo especialistas, isso é um ledo engano, e o CDI não resolve todos os problemas da carteira.

Primeiro, porque o Brasil é mais vulnerável a choques econômicos, instabilidades políticas e crises fiscais, o que impacta diretamente o desempenho dos ativos locais, dizem. Segundo, porque o mercado de capitais brasileiro representa apenas entre 1% e 2% do volume global e é fortemente concentrado em setores como bancos e commodities, deixando o investidor de fora de áreas em expansão acelerada, como inteligência artificial. Por fim, alegam, investir no exterior permite uma proteção cambial que ajuda a preservar o poder de compra do patrimônio ao longo do tempo, especialmente com o histórico de desvalorização do real frente ao dólar.

“Acreditamos que a alocação em um portfólio de ativos globais em complemento ao portfólio de ativos locais faz sentido estruturalmente para a grande maioria dos investidores brasileiros, até mesmo os conservadores”, afirmou Rodrigo Sgavioli, head de Alocação da XP. Segundo ele, os ativos dolarizados trazem uma relação risco-retorno mais eficiente para o patrimônio financeiro no longo prazo.

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Caio Athié Teruel, economista e sócio da Cimo Family Office, segue a mesma linha. Para ele, ignorar os ativos internacionais restringe o universo de oportunidades e tende a reduzir a rentabilidade da carteira. “Hoje, existem excelentes fundos, emissões e ativos custodiados no exterior. Assim, independentemente de estarem indexados ao real ou ao dólar, acreditamos ser estratégico incluí-los no portfólio”, afirmou.

Tomás Roque, analista sênior da Avenue, lembrou que apenas 2,5% do patrimônio dos brasileiros está alocado no exterior um índice semelhante ao de países como China e Índia. Para ele, esse número reflete o “viés doméstico”, ou seja, a preferência por investir em ativos conhecidos e próximos. “Apesar da atratividade dos juros, investir apenas no Brasil pode ser limitante”, falou.

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Em quais ativos globais investir?

A renda fixa nos EUA segue sendo o carro-chefe. Os Treasuries americanos, equivalentes aos títulos do Tesouro, estão pagando cerca de 4,34% ao ano – nível historicamente elevado, com retorno passivo em dólar. “Nos EUA, a taxa de juros está em torno de 4,5% ao ano, a maior em 15 anos. Com a valorização média histórica do dólar frente ao real, de 8,8% ao ano, os retornos podem se aproximar de 13% ao ano em dólar, o que é competitivo frente ao CDI”, disse Roque.

Sgavioli, da XP, alertou, no entanto, para o contexto de piora fiscal nos EUA e em outros países desenvolvidos, o pede atenção para a duração dos investimento. “Sugerimos uma duration próxima a 3 ou 4 anos, enquanto o índice de referência (Global Aggregate) possui duration de cerca de 6 anos”, explicou.

Na renda variável, a XP está “neutra” regionalmente, com uma alocação aproximada de 60% em EUA, 15% em Europa e 10% em emergentes. Na terra do Tio Sam, a preferência é por setores ligados à IA, direta ou indiretamente, como utilities. Já Teruel sugere a inclusão de hedge funds. Segundo ele, esses fundos oferecem rentabilidade positiva e descorrelacionada, agregando diversificação à carteira – e podem ser dolarizados ou não. “Com a Selic a 15%, converter parte dessas alocações para reais pode gerar retorno adicional frente ao mesmo investimento em dólar”, afirmou.

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Quanto da carteira investir no exterior?

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), publicado no início deste ano, apontou que é necessário investir entre 16% e 18% do patrimônio fora do país para neutralizar o impacto do câmbio no consumo do brasileiro. Para Roque, da Avenue, esse percentual é adequado.

Dentro da alocação internacional, a XP recomenda a tradicional divisão entre renda fixa e variável, utilizando o formato 40/60 (40% em ações e 60% em renda fixa) para quem está iniciando na diversificação global.

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E os riscos?

Investir no exterior também traz riscos. Segundo Roque, um deles é o de liquidez. “É preciso verificar se o ativo tem liquidez compatível com o perfil do investidor – pode ser D+1, D+2 ou mais alongado”, explicou.

Outro risco comum é o de crédito, ou seja, o emissor não honrar pagamentos periódicos ou no vencimento. Há ainda o risco de volatilidade, mais presente em ativos pré-fixados e na renda variável.

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Sgavioli, da XP, falou que um ponto de atenção na parte macro, que afeta mais diretamente a renda fixa, é o crescente endividamento das principais economias globais. “Mesmo passada a pandemia, (os países) não estão endereçando uma melhora nas suas dinâmicas fiscais, o que tem elevado o prêmio a termo dos seus títulos de renda fixa de longo prazo, como é o caso dos EUA, Japão, Reino Unido e até mesmo, mais recentemente, a Alemanha”.

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