Investidores apostam que Fed resiste a Trump, mas cenário extremo assusta

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A investigação criminal contra Jerome Powell e a ofensiva do governo Donald Trump contra a independência do Federal Reserve ainda não provocaram pânico nos mercados. O dólar recuou pouco, os juros longos subiram apenas marginalmente e as bolsas ficaram praticamente estáveis. Mas, para alguns agentes do mercado, o risco embutido nesse embate é muito maior do que os preços sugerem.

A leitura central é que a disputa não é apenas sobre Powell, mas sobre quem controlará o coração da política monetária americana após maio, quando termina seu mandato como presidente do Fed.

“O mandato dele como presidente acaba em maio, mas ele pode ficar no board até 2028. Se ele sair, o Trump ganha dois votos no Fomc [o Copom dos EUA]”, diz Luís Octávio Leal, da G5 Partners. “Isso muda o equilíbrio do comitê.”

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Esse risco ganhou uma dimensão rara. Senadores republicanos como Thom Tillis e Lisa Murkowski ameaçaram bloquear as indicações de Trump para o Fed enquanto o caso não for resolvido. Ex-presidentes do Fed e ex-secretários do Tesouro, de governos democratas e republicanos, divulgaram um manifesto alertando que a investigação contra Powell “é típica de países com instituições fracas” e ameaça a estabilidade econômica dos EUA.

Apesar dos riscos, há quem mantenha uma leitura mais construtiva. É o caso do Asa. “Enquanto Powell e os dirigentes do Fed se mantiverem firmes e a lei não pender para o Trump, o mercado trata isso como ruído”, afirma a economista Andressa Durão. “O mercado só vai reagir de forma mais forte se perceber que a Justiça pode abrir caminho para uma intervenção política no Fed”, diz.

Nesse cenário, a casa segue apostando em crescimento americano e dólar resiliente, com o episódio sendo visto mais como barulho político do que como uma ruptura na condução da política monetária.

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Esse otimismo explica por que os contratos futuros continuam precificando apenas um ou dois cortes de juros em 2026. Só o ouro a prata subiram.

Mas um estudo mostra por que esse risco, se materializado, seria estruturalmente explosivo para os mercados.

O que um Fed alinhado pode significar?

Segundo o Itaú, o atual Fed de Powell ainda opera com uma meta implícita de inflação próxima de 2%, mesmo após os cortes de juros. Mas isso muda rapidamente se um novo presidente politicamente alinhado ao governo reduzir a taxa básica abaixo do nível neutro de 3%.

Em uma simulação em que os juros caem para 2,5%, algo defendido por aliados de Trump, a meta implícita de inflação sobe para 4% a 5%, um patamar compatível com perda de controle das expectativas, como ocorreu nos anos 1970.

Esse é o ponto-chave para o mercado de renda fixa. Um Fed visto como leniente com a inflação não reduz os juros de longo prazo. Ele faz o oposto.“O prêmio de risco sobe”, aponta o relatório do banco assinado pelo economista Bernardo Dutra e o economista-chefe Mario Mesquita.

Foi o que aconteceu no “Dia da Libertação” de Trump, em que ele anunciou as tarifas: os preços vieram abaixo e ele passou a recuar.

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Em um cenário de inflação mais alta e Fed politizado, os rendimentos dos Treasuries longos poderiam ir para 4,5% a 5% ou mais, mesmo que a taxa básica caia, aponta o estudo do Itaú.

Esse risco já começa a aparecer nas mesas de gestão. Grandes gestoras como Pimco, PGIM e DWS alertaram que atacar a credibilidade do Fed é “marcar gol contra”, porque aumenta os juros de longo prazo, encarece hipotecas, crédito corporativo e financiamento público.

E o dólar?

No câmbio, o efeito também seria direto. O Itaú estima que um Fed mais leniente poderia provocar uma desvalorização adicional de 4% a 5% do dólar, tanto pelo diferencial de juros quanto pela erosão da credibilidade institucional dos EUA.

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“Uma desvalorização de cinco por cento mais ou menos que traria o DXY de 98 para um nível mais próximo do patamar histórico de 92 ou 93”, explica Leal, da G5. “Eu acho totalmente razoável, ainda mais considerando esse cenário [de deterioração do Fed]”, conclui.

Por enquanto, esse cenário extremo ainda não está nos preços. Os breakevens de inflação seguem estáveis e o mercado continua tratando a crise como política, em meio a uma liquidez abundante que ajuda a conter danos.

Mas, segundo a ex-presidente do Fed Janet Yellen, o perigo pode estar exatamente aí.

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“Estou surpresa que o mercado não esteja mais preocupado. O mercado deveria estar preocupado”, disse Yellen à CNBC. A situação é “extremamente arrepiante”, ela falou.

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