A relação entre Brasil e China ganhou novos contornos nos últimos anos, com o avanço de gigantes de tecnologia e consumo chinesas no mercado brasileiro. Essa aproximação, que vai muito além das históricas trocas de commodities, foi tema da 4ª Conferência Institucional da XP, evento paralelo à Expert XP 2025.
Ron Cao, fundador da Sky9 Capital, destacou que a presença de empresas chinesas de tecnologia no Brasil é um fenômeno recente e estratégico. “Há cinco ou dez anos, companhias como Huawei e BYD não estavam aqui; atuavam mais em negociações comerciais e energéticas, o que não favorecia a capitalização dos negócios. Hoje, elas olham para o Brasil como um parceiro”, afirmou.
Para ele, a globalização digital aproximou culturas e mercados, criando um ambiente favorável para parcerias em engenharia, distribuição e geração conjunta de receitas.
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Segundo Cao, essa abertura ganhou impulso com as tensões comerciais entre China e Estados Unidos, que levaram empresas chinesas a buscarem novos aliados. “Não é mais sobre nós contra o mundo, mas sobre nós e nossos parceiros”, disse.
Ele lembrou que o primeiro unicórnio brasileiro, criado em 1999, chegou a esse status após ser adquirido pela Didi, o “Uber da China”, evidenciando a força do capital e da inovação chinesa no país.
O caso Lucky Coffee e o apetite pelo mercado consumidor brasileiro
Se a tecnologia aproxima, o consumo conecta ainda mais. Ning Kang, diretor executivo da IDG Capital, trouxe para a discussão o exemplo da Lucky Coffee, rede chinesa que rivaliza com a Starbucks no país asiático.
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Em menos de oito anos, a empresa abriu mais de 24 mil lojas — três vezes mais que a gigante americana em território chinês.
De acordo com Ning, parte desse sucesso se deve à eficiência da manufatura 2.0 chinesa e a um modelo de negócios ágil: pequenas lojas, com um terço do espaço dos concorrentes, foco no sistema grab-and-go e forte uso de aplicativos para pedidos e retirada rápida.
“Eles conseguem produzir um café em um terço do tempo e criar três vezes mais fluxo, além de lançar até 120 novos produtos por ano, como o popular Coconut Latte”, explicou.
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A conexão com o Brasil, nesse caso, já é direta: a Lucky importa grande parte de seu café do país.
“Vemos no Brasil um mercado de consumo enorme, com demanda crescente por produtos e serviços de qualidade. É uma oportunidade para empresas chinesas oferecerem o que têm de melhor”, afirmou Ning, ressaltando que o país é estratégico para o avanço das marcas da China.
Ele também destacou a habilidade da empresa em transformar clientes em promotores espontâneos.
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“A cada amigo indicado que fosse à loja, você ganhava um café grátis. Recebi tantas xícaras assim que fiquei obcecado por café”, contou, arrancando risos da plateia.
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Sociedade mobile-first e o salto tecnológico da China
Aileen Chang, fundadora e CIO da Tashi Capital Management, trouxe uma perspectiva histórica para explicar o momento de protagonismo chinês na economia digital e industrial.
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Para ela, a chave está na peculiaridade de a China ter se tornado uma sociedade nativa do celular praticamente do dia para a noite.
“No início dos anos 2010, apenas 15% da população tinha smartphones; dois anos depois, o índice saltou para 60%”, disse.
Essa rápida adoção foi possível porque o país já havia desenvolvido uma cadeia produtiva capaz de fabricar celulares localmente a preços acessíveis, justamente quando a população alcançou renda suficiente para comprá-los.
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Diferentemente de países desenvolvidos, onde a internet móvel foi apenas uma extensão da banda larga, na China ela representou uma revolução total, permitindo que serviços como o WeChat Pay e plataformas como Taobao se tornassem onipresentes.
A consequência foi um ecossistema altamente competitivo, capaz de criar produtos inovadores em áreas como drones, painéis solares, baterias e veículos elétricos.
“A China forma 12 milhões de universitários por ano, sendo quase 40% engenheiros, e valoriza esses profissionais. Esse é o motor da competitividade”, observou Aileen.
O desafio de operar globalmente
Apesar da força produtiva e da capacidade de inovação, Chang lembrou que o próximo passo para as empresas chinesas é mais complexo: operar com rentabilidade em mercados estrangeiros.
“Exportar é simples, mas não basta. As empresas querem estar presentes, criar empregos, como fizeram europeus, coreanos e japoneses. Esse aprendizado leva décadas, e as chinesas estão apenas começando”, ponderou.
Para os palestrantes, o Brasil surge como um campo fértil nessa trajetória. Com um mercado consumidor robusto, afinidade crescente com a cultura digital e laços comerciais sólidos, o país pode se tornar peça-chave na expansão de gigantes chinesas — tanto na tecnologia quanto no consumo.
Ou, como resumiu Ron Cao, “o jogo agora é encontrar parceiros certos, construir juntos e seguir o dinheiro. E cada vez mais, esse caminho passa pelo Brasil”.


